Figuras de Linguagem e Recursos Didáticos no Ensino de Jesus nos Evangelhos
Esse texto está fundamentado nas contribuições na área da hermenêutica de KOSTENBERGER, Andreas J.; PATTERSON, Richard D. Convite à interpretação bíblica: a tríade hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015, que trata das figuras e recursos de linguagem usados por Jesus nos Evangelhos — mostrando como Ele ensinava por meio de expressões simbólicas, comparações, exageros retóricos e recursos literários típicos da cultura semítica.
Em resumo, o texto explica como interpretar corretamente as palavras de Jesus, reconhecendo que Ele não falava de forma literal ou científica, mas usava linguagem figurada e poética para ensinar verdades espirituais.

Exagero retórico
O exagero retórico consiste em ampliar um aspecto ou exacerbar uma verdade para atrair a atenção dos ouvintes. Essa técnica não é exclusiva de Jesus; era uma característica geral do discurso semítico. A intenção era comunicar aos ouvintes a necessidade de abandonar atitudes e comportamentos pecaminosos. Para entender a essência da mensagem contida nessas afirmações, é preciso discernir o sentido subjacente às palavras em si (Mt 5.29-30; Lc 14.26).

Hipérbole
A hipérbole é um recurso muito próximo do exagero retórico e, às vezes, é difícil distinguir entre os dois. A diferença é que, na hipérbole, o exagero é mais acentuado; além disso, diferentemente do exagero retórico, a representação ou o cumprimento literal de uma hipérbole é impossível (Mt 23.23-24; 7.3-5; Mc 10.24b-25).

Trocadilho
O trocadilho é um jogo de palavras em que uma delas pode ter mais de um significado, ou em que duas palavras homônimas (ou homófonas) são empregadas para insinuar dois ou mais sentidos. O leitor, muitas vezes, não percebe os trocadilhos de Jesus. Apesar de óbvios na língua original (aramaico ou, às vezes, grego), as traduções da Bíblia nem sempre preservam os trocadilhos como foram ditos. Note-se, por exemplo, o trocadilho em Mateus 23.23-24, dito por Jesus originalmente em aramaico: “Guias cegos! Coais um mosquito (galma) e engolis um camelo (gamla)”. Outro exemplo conhecido ocorre no texto grego de Mateus 16.18, na referência de Jesus a Pedro (Petros) como pedra (petra).

Símile
O símile é uma figura de linguagem em que se comparam duas coisas essencialmente semelhantes entre si. Constrói-se com palavras de ligação como “tal”, “como”, “assim”, entre outras, ou mediante verbos como “parecer”, por exemplo. Na forma mais simples, o símile identifica uma única correspondência entre dois itens numa frase. Quando se estende para formar uma imagem ou descrição, o símile é chamado de similitude. Quando se desenvolve numa história, o símile passa a ser uma parábola narrativa (e.g., Mt 10.16; 12.40; Lc 17.6; 13.34).

Metáfora
A metáfora, assim como o símile, também compara duas coisas essencialmente diferentes, mas que têm algo em comum. Assim como os símiles, as metáforas também podem ocorrer em série e ser extensas (Mt 9.37-38; Mc 8.15; 9.49-50; Lc 13.31-32).

Provérbio
O provérbio é uma afirmação sucinta e expressiva que transmite uma verdade de forma fácil de ser lembrada. Ao empregar provérbios, Jesus demonstrava a continuidade de seus ensinamentos com a tradição da sabedoria de Israel. Em sentido amplo, também se incluem nessa categoria as máximas e os aforismos (Mt 26.52; Mc 6.4; Lc 9.62).

Enigma
O enigma é uma afirmação simples cujo sentido velado o ouvinte deve descobrir. O uso que Jesus fazia de enigmas, como no caso dos provérbios, remete aos antecedentes do Antigo Testamento. Um exemplo muito citado de enigma bíblico é o de Sansão, em Juízes 14.14 (v. também Mt 11.12; Mc 14.58; Lc 13.32b-33).

Paradoxo
O paradoxo é uma proposição que parece contraditória. Esse tipo de proposição deve ser interpretado à luz dos valores e das crenças dos contemporâneos de Jesus (Mt 23.27-28; Mc 10.43-44).

Afirmação a fortiori
Uma afirmação a fortiori, que raciocina do menor para o maior, é um tipo de argumento “em que a conclusão decorre com necessidade lógica ainda maior do que o fato já aceito ou a conclusão anteriormente apresentada” (Mt 6.28-30; 7.9-11; 10.25).

Ironia
Em sentido restrito, a ironia é um recurso literário cujo propósito é levar o interlocutor a compreender o oposto do sentido literal daquilo que foi afirmado. Em geral, a ironia ocorre em um contexto em que há um falso senso de ignorância. Segundo a definição mais elementar, a ironia faz um contraste entre aparência e realidade (entre os possíveis exemplos estão Mt 16.2-3; Lc 12.16-20).

Perguntas
Jesus frequentemente usava perguntas para tratar de algum assunto e para imprimir, de maneira mais eficaz, uma determinada verdade na mente de seus ouvintes (Mc 8.27-32). Jesus tinha preferência pelas perguntas retóricas, aquelas cujo objetivo é gerar uma reação específica nos ouvintes (Mt 7.16; Mc 3.23; Lc 15.8). Ele também, muitas vezes, respondia a uma pergunta com outra pergunta, sobretudo em situações hostis (Mc 3.1-4; 11.27-33).

Gestos figurativos ou parabólicos
Em alguns casos, Jesus usou técnicas de ensino não verbais, em que o próprio gesto comunicava a mensagem específica. Nesses casos, mesmo que acrescentasse um comentário verbal em seguida, isso não era necessário para que a lição fosse entendida (Mc 3.14-19; Lc 19.1-6).

Poesia
Os Evangelhos contêm vários casos em que as afirmações de Jesus são transmitidas de forma poética. Há diversos exemplos de poesia nas falas de Jesus registradas nos Evangelhos (Mt 7.7-8; Mc 3.24-25; Lc 6.27-28).

Enfim, a forma ou o veículo que Jesus empregava para transmitir sua mensagem evidentemente não é a linguagem científica do século XXI, mas, sim, a linguagem metafórica, exagerada, impactante, de uma cultura que gostava muito de contar e ouvir histórias.

Compartilhe :

Deixe um comentário