A REFORMA PROTESTANTE E O PAPEL DA MULHER: AVANÇOS, CONTRADIÇÕES E LEGADOS

Caros estudantes, o texto pode ser lido na íntegra na seguinte obra: LINDBERG, Carter. História da Reforma. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017, cujo o tema da seção é “Reformas e o Papel da Mulher”.

A Reforma Protestante foi um dos movimentos mais impactantes da história do cristianismo. Entre as várias transformações ocorridas, destaca-se a mudança radical no entendimento sobre casamento, sexualidade e o papel da mulher na vida religiosa e social.

O Fim do Celibato Clerical: Uma Revolução Social

Nenhuma outra mudança institucional promovida pela Reforma foi tão visível quanto o casamento de pastores protestantes. O fim da obrigatoriedade do celibato teve implicações profundas. Lutero, por exemplo, não apenas se casou, mas exaltava o matrimônio como expressão da vida cristã plena. Pastores casados passaram a ser vistos como testemunhos vivos da nova doutrina.

A esposa dos ministros não era mera coadjuvante. Muitas delas exerciam papel ativo no ministério e na teologia. Anna Rhegius, por exemplo, conhecia hebraico e debatia teologia com seu marido. Walpurga, esposa de Bugenhagen, foi chamada por Lutero de “pastora” pela forma como acompanhava o marido no exercício do ministério.

Um caso singular é o de Wibrandis Rosenblatt, que foi esposa de três reformadores sucessivos: Johannes Oecolampadius, Wolfgang Capito e Martin Bucer. Assim, esteve envolvida diretamente com os principais centros da Reforma na Basileia, Estrasburgo e, indiretamente, na Inglaterra.

Mais do que uma curiosidade biográfica, o testemunho dessas mulheres revela que a Reforma não foi apenas um movimento de ideias — mas também de vidas transformadas, inclusive femininas.

Os filhos dos pastores, antes vistos como ilegítimos sob a ótica do celibato, passaram a ser reconhecidos com dignidade. Reformadores como Erasmus Alberus celebravam essa mudança, agradecendo a Deus por isso. O casamento passou a ser visto como um contrato (e não como um sacramento), abrindo espaço até mesmo para a discussão sobre divórcio e novo casamento, algo impensável sob o direito canônico da Igreja Católica da época.

Reformadores como Martin Bucer defendiam que o casamento sem amor e sem mutualidade podia ser desfeito — uma visão ousada, ancorada na Bíblia e no bem-estar da comunidade.

Avanços e Contradições

Apesar dessas mudanças, não podemos ignorar que muitas das visões patriarcais e misóginas da Idade Média persistiram. Reformadores como Calvino e John Knox expressaram reservas sobre a autoridade feminina. Mesmo entre protestantes, mulheres continuaram a ser marginalizadas em diversos contextos, especialmente em posições de liderança.

A Reforma articulou uma nova consciência sobre o papel da mulher, mas não rompeu de forma definitiva com os limites sociais impostos a elas. Como afirmou Karant-Nunn: “Toda a Europa — provavelmente incluindo as próprias mulheres — tinha em pouca estima o sexo feminino”.

As Mulheres e o Convento: Entre Liberdade e Vocação

Com o fim da vida monástica em muitos territórios reformados, muitas mulheres perderam um dos poucos espaços de relativa autonomia que tinham. Algumas se alegraram com a “libertação” dos conventos; outras, no entanto, resistiram bravamente à pressão de deixá-los.

Ursula von Münsterberg e Marie Dentière foram duas dessas figuras emblemáticas. A primeira escreveu defendendo sua saída do convento por causa da fé reformada; a segunda destacou-se como pregadora e teóloga, desafiando a ideia de que o Evangelho era apenas para homens.

Por outro lado, freiras como Katherine Rem, Jeanne de Jussie e Caritas Pirckheimer permaneceram firmes em seus votos, defendendo seus mosteiros como locais legítimos de fé e serviço cristão.

Gênero, Resistência e Martírio

A introdução da análise de gênero nos estudos sobre a Reforma tem revelado novas dimensões dessa história. Muitas mulheres, especialmente de classes populares, tornaram-se mártires do protestantismo — corajosas, articuladas e teologicamente convictas. Como observa Hickerson, a desobediência feminina nesses casos era vista como especialmente perigosa, pois desafiava hierarquias de gênero e classe profundamente enraizadas.

Em sucessivas edições da Livro dos Mártires, essas figuras femininas foram suavizadas: onde havia ousadia e erudição, passou-se a exaltar a submissão e a simplicidade — um reflexo do esforço posterior de domesticar o impacto radical da voz feminina.

A Reforma e o Gênero: Uma Nova Ética?

Martinho Lutero não era misógino, nem fazia distinção de valor entre homens e mulheres. Ele se opunha ao uso de prostíbulos, prática comum na época justificada como “controle da sexualidade masculina”. Lutero, ao contrário, propunha uma ética de responsabilidade: o homem deve controlar seus desejos e viver em fidelidade à sua esposa, como parte de seu chamado cristão.

Ainda assim, como bem aponta Kirsi Stjerna, os reformadores estavam mais preocupados com a salvação e a renovação da Igreja do que com a igualdade de gênero. A preservação da ordem social era vista como necessária à manutenção dos valores religiosos.

Outro autor que faz uma observação sobre o assunto é Roger Olson, em sua obra “História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas”. Este autor explica que, quando pensamos na história da teologia cristã, nomes como Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero e Calvino surgem com naturalidade. Mas e quanto às mulheres? Onde estavam elas nos séculos formativos da tradição cristã?

Quando pensamos na história da teologia cristã, nomes como Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero e Calvino surgem com naturalidade. Mas e quanto às mulheres? Onde estavam elas nos séculos formativos da tradição cristã?

O teólogo Roger Olson, em sua obra História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas, faz uma observação direta e honesta sobre essa ausência.

Olson (2000) reconhece que, embora as mulheres estivessem presentes e ativas na vida espiritual da Igreja, não encontramos entre elas, até os tempos modernos, nomes que tenham influenciado significativamente os rumos da teologia formal da Igreja — ao menos não nos registros tradicionais.

Olson (2000) explica:

“Deveria ter havido mães da Igreja paralelamente aos pais da Igreja. O fato de isso não ter acontecido é um escândalo para a Igreja, mas não é motivo para histórias revisionistas que as inventem.” (História da Teologia Cristã, p. 19).

Segundo ele, isso se deve, não à falta de espiritualidade ou capacidade intelectual das mulheres, mas ao peso da cultura patriarcal que moldou tanto a sociedade ocidental quanto as instituições religiosas ao longo dos séculos. Assim, as estruturas eclesiásticas e acadêmicas dificultaram — ou até impediram — que as mulheres assumissem protagonismo na elaboração teológica.

Olson (2000) lamenta essa realidade, mas não tenta preencher a lacuna com romantizações. Ao contrário, ele propõe que reconheçamos o problema com seriedade histórica e espiritual. A ausência de “mães da Igreja” — ao lado dos bem conhecidos “pais da Igreja” — é um reflexo de uma estrutura desigual que precisa ser lembrada, discutida e superada.

Conclusão: Ajuda ou Impedimento?

A pergunta inevitável permanece: a Reforma ajudou ou prejudicou as mulheres?

A resposta mais honesta é: depende. Depende do contexto histórico, da região, da classe social, do grau de envolvimento com o movimento reformador e, sobretudo, do olhar que se lança sobre essas transformações.

Ainda assim, é inegável que a Reforma abriu caminhos — mesmo que tímidos e muitas vezes ambíguos — para a redescoberta da dignidade da mulher na vida cristã. Esses caminhos, por mais estreitos que tenham sido, continuam sendo trilhados até hoje.

Trazer à luz as omissões e os silenciamentos do passado não enfraquece a tradição cristã — pelo contrário, fortalece-a, tornando-a mais justa, consciente e fiel ao Evangelho.

Reconhecer as vozes femininas esquecidas não é uma ruptura com a herança da fé, mas um convite à sua reconstrução consciente. Para que a próxima geração de cristãos conheça, celebre e aprenda não apenas com os pais, mas também com as mães da fé.

O texto pode ser lido na íntegra na seguinte obra: LINDBERG, Carter. História da Reforma. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017, cujo o tema da seção é “Reformas e o Papel da Mulher”.

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