Caro leitor, o trecho a seguir foi adaptado da obra “OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 477-448”.
Richard Gaffin (1976), afirma que a “teologia bíblica é a reguladora da exegese”, porque “a estrutura histórica do próprio processo de revelação”, e não apenas as “relações literárias”, é o que determina a mensagem da Bíblia.
No movimento da teologia bíblica, existe uma tensão permanente entre diversidade e unidade, entre preocupações histórico-críticas e interpretações histórico-gramaticais.
Nesse sentido, estudiosos críticos são, por vezes, mais literalistas do que os conservadores, os quais geralmente partem do pressuposto de que qualquer suposta contradição ou diferença entre os escritores bíblicos removeria a base para uma unidade teológica mais profunda entre eles. No entanto, isso é desnecessário, pois os autores utilizam termos e expressões diferentes para conceitos teológicos semelhantes, enfatizando aspectos distintos de uma mesma realidade teológica.

Por exemplo, a soberania divina e o livre-arbítrio humano não são aspectos contraditórios do processo da salvação, podendo ser harmonizados em um nível teológico mais profundo (embora não se possa harmonizar, por exemplo, a garantia condicional com a garantia incondicional — ou a pessoa pode perder sua salvação, ou não). O mesmo ocorre com os conceitos de fé (Paulo) e obras (Tiago): embora as obras não possam salvar (Ef 2.8–9), elas são o resultado necessário de uma fé genuína (Ef 2.10; Tg 2.14–16).
Todavia, essa é apenas uma parte do quadro. Há uma relação de mão dupla entre teologia bíblica e exegese. A primeira fornece as categorias teológicas e a unidade bíblica global que orientam a interpretação de passagens específicas; a segunda oferece os dados textuais e contextuais que são reunidos dentro de uma teologia bíblica. Em outras palavras, as duas são interdependentes: o exegeta busca compreender o que o autor bíblico quis dizer, considerando os aspectos literários (gramática e desenvolvimento do pensamento) e o contexto histórico e sociocultural; a partir desses resultados, o teólogo bíblico identifica padrões de unidade e continuidade por trás das declarações individuais.
Em suma, a espiral hermenêutica amplia-se para incluir a teologia em um diálogo entre cinco divisões do processo hermenêutico: exegese, teologia bíblica, teologia histórica, teologia sistemática e teologia prática. Dentro desse esquema, exegese, teologia bíblica e teologia sistemática permanecem em diálogo contínuo, contribuindo para uma compreensão mais profunda e integrada da revelação divina.