As afirmações: “Eu sou”, e a divindade de Jesus
Trecho transcrito da obra Teologia Bíblica do Novo Testamento, de Roy Zuck (2016, p. 201–204).
As afirmações: “Eu sou”, e a divindade de Jesus
As afirmações “Eu sou” é o tema teológico central do Evangelho de João. Elas, como declarações de Jesus na primeira pessoa, formam uma parte relevante da autorrevelação dEle. Essas afirmações são importantes por dois motivos. O primeiro é que algumas delas, ao usar metáforas (por exemplo: “Eu sou o pão da vida”, 6.35), fazem asserções significativas sobre Jesus. O segundo é que a expressão “Eu sou” é usada no Antigo Testamento como uma descrição de Deus (Ex 3.14; cf. Is 46.4). Algumas afirmações “Eu sou” do Evangelho de João (8.24, 28, 58; 13.19; e, talvez, 18.5) são absolutas (ou seja, sem um predicativo) e sugerem firmemente uma alusão a Êxodo 3.14.
No Evangelho de João há sete afirmações “Eu sou” que fazem asserções a respeito de Jesus. Ele usa essa construção para falar sobre si mesmo como “o pão da vida” (6.35), “a luz do mundo” (8.12), “a porta” (10.7), “o bom Pastor” (10.11), “a ressurreição e a vida” (11.25), “o caminho, e a verdade, e a vida” (14.6) e “a videira” (15.1). Cada uma dessas metáforas ilustra algum aspecto da pessoa e da obra de Jesus.
Como pão da vida, Jesus é o provedor e sustentador de toda a vida. Como luz do mundo, Ele é o provedor de luz moral — mas também é a luz que entrou no mundo na criação deste (1.4) e que continua a resplandecer nas trevas (1.5). Muitos desses conceitos abstratos sobre o Logos, mencionados no prólogo do Evangelho de João, tornam-se concretos por meio das afirmações “Eu sou”. Essas afirmações, fundamentais para a compreensão de quem é Jesus e do que Ele veio fazer, quase o identificam explicitamente com o nome de Jeová, conforme encontrado no Antigo Testamento.
No entanto, as afirmações absolutas “Eu Sou” (sem predicativos) vão mais longe. Quatro dessas afirmações fazem declarações explícitas da identificação de Jesus com Deus (8.24, 28, 58; 13.19). João 8.58 apresenta a mais clara e extraordinária delas: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Essa foi a resposta de Jesus à declaração de seus oponentes: “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?” (v. 57). A afirmação de Jesus alude de forma evidente a Êxodo 3.14, e a reação de seus oponentes deixa claro que entenderam suas palavras como uma afirmação de identificação divina. Eles se prepararam para apedrejá-lo, pois, de acordo com sua compreensão, essa declaração era uma blasfêmia (v. 59).
Devemos ver os três usos restantes da expressão “Eu Sou” (8.24, 28; 13.19) à luz de 8.58. Embora possamos entendê-los como simples asserções (“Eu Sou Ele”), no contexto em que ocorrem, parecem implicar algo mais. Em 8.24 e 28, Jesus discutia quem Ele é. Disse a seus oponentes que Ele é de cima, não deste mundo, e que, se não acreditassem que Ele é quem afirma ser (“Eu Sou”), morreriam nos seus pecados (v. 24). Nesse contexto, está em jogo a necessidade urgente de crer em Jesus para a salvação e o perdão dos pecados.
Jesus declarou que, quando fosse “levantado” (na crucificação, ressurreição e ascensão), poderia atrair todas as pessoas para si (8.28; cf. 12.32) e que, nesse momento, ficaria claro — para quem tem olhos para ver — que Ele realmente carrega o nome divino (“Eu Sou”) e tem poder para conduzir pessoas ao Pai. Todavia, se elas se recusassem a acreditar — recusando-se, portanto, a enxergar —, por não haver outro caminho (cf. 14.6) que leve ao Pai, iriam para a sepultura para sempre, separadas das dádivas da vida eterna e do provedor dessa vida.
Em João 13.19, Jesus, de forma semelhante, revela antecipadamente aos discípulos a traição que sofreria, a fim de que, quando isso acontecesse, a fé deles fosse fortalecida (que eles já criam fica claro por meio de inúmeras declarações anteriores do Evangelho, como 2.11). O final da frase em 13.19, “que Eu Sou” (“que eu sou Ele”), indica aquilo em que os discípulos acreditariam ao se lembrarem da predição de Jesus sobre sua traição. Aqui, a expressão quase certamente deve ser entendida como uma afirmação absoluta, sem predicativo, assim como em 8.28.
Os discípulos, em sua reflexão posterior (pós-ressurreição) sobre a predição de Jesus quanto à traição, concluiriam que Ele esteve no total controle da situação — como só Deus poderia estar.
Na afirmação de Jesus “Eu Sou”, registrada em João 18.5, fica menos evidente a identificação absoluta com Deus. Talvez Jesus apenas estivesse se identificando como a pessoa que Judas e os soldados procuravam. Todavia, com base na resposta à afirmação de Jesus, apresentada em 18.6, alguns intérpretes consideram essa cena semelhante a uma teofania, em que Jesus revelou, por um momento, a seus inimigos quem Ele realmente é, levando-os a se prostrarem a seus pés.
Pode muito bem ser que João, nos versículos 5 e 6, apenas tenha registrado um incidente em que os oponentes de Jesus recuam por causa da surpresa ou do espanto diante do que perceberam como blasfêmia. No entanto, para o leitor do Evangelho — que já sabe quem é Jesus e que sua afirmação de identificação com Deus é verdadeira —, a reação dos inimigos é muitíssimo irônica. O próprio traidor, Judas, cai aos pés de Jesus antes de os soldados o levarem para seu julgamento e crucificação.
Afirmações relacionadas à identidade de Jesus e do Pai
Em João 10.30 e 17.22, as declarações concernentes à identidade de Jesus e do Pai também apontam para a divindade de Jesus. Alguns intérpretes entendem que, nessas passagens, as palavras de Jesus afirmam apenas unidade de vontade, de ação ou de propósito. Todavia, a estrutura do Evangelho de João declara que a Palavra é essencialmente Deus (1.1), e, em 20.28, a confissão de Tomé representa o ponto culminante.
Conforme já visto em 8.58, Jesus alude à sua identificação com Deus ao apropriar-se do nome divino (cf. Ex 3.14), e os oponentes judeus respondem tentando apedrejá-lo. Em João 10.30 ocorre uma resposta semelhante à afirmação de Jesus: “Eu e o Pai somos um”. Isso sugere que os oponentes entenderam sua declaração de divindade como blasfêmia.
É importante observar que, embora as afirmações de 10.30 e 17.22, concernentes ao relacionamento de Jesus com o Pai, impliquem sua divindade, elas ficam aquém da identidade total. Em João 10.30, a palavra usada por Jesus para “um” é neutra na forma, em vez de masculina; por isso, preserva a distinção entre Jesus e o Pai estabelecida no prólogo do quarto evangelho (1.1b, “o Verbo estava com Deus”) e mantida no restante do Evangelho.
A divindade de Jesus no Apocalipse
No livro de Apocalipse, o uso da expressão ho ōn (“daquele que é”, em 1.4, 8; 4.8; 11.17; 16.5) também aponta para a divindade de Jesus, pois alude à forma como Deus se designou em Êxodo 3.14. No Apocalipse, há também três afirmações “Eu Sou” (1.8; 21.6; 22.13), seguidas do mesmo predicado (“o Alfa e o Ômega”).
Dessas, é provável que a primeira seja melhor entendida como um pronunciamento de Deus Pai (1.8), enquanto a última (22.13) pertença a Jesus exaltado (cf. 22.16). É difícil ter certeza se, em 21.6, quem fala é Jesus ou o Pai; todavia, é provável que se trate do Pai.
Em todo caso, a permutabilidade do orador entre 1.8 e 22.13 (Jesus e o Pai) constitui uma declaração implícita da divindade de Jesus.
Compartilhe :

Deixe um comentário